Psicologia

As emoções…

Por Drª Andreia Santos

1252684280O potencial das nossas emoções começou por ser menosprezado e até tido por inexistente, hoje sabe-se que não é nada assim e que nelas reside a chave do equilíbrio, tão falado, corpo-mente. Na verdade, sobre os seres humanos, deixamos de lado o Dualismo Cartesiano e reconhecemos agora, nas teorias que explicam o seu funcionamento, as interligações entre a razão e a emoção, entre o que pensamos e o que sentimos, um raciocínio que vale igualmente em sentido inverso (entre o que sentimos e o que pensamos). O Sentimento de Si, nas palavras de António Damásio, prova-o desde logo. Não é possível separar o que até nos protege: recordo um exercício simples, que o autor, no mesmo livro, elabora: se enquanto escrevesse este artigo, me pedissem para pensar em algo que considero ridículo, e não tivesse a censura emocional necessária para não transcrever o que sinto, (vergonha, pudor, que a razão rastreia) não conseguiria com clareza e bom senso transmitir a ideia do texto. Pois bem, é sobre isto que quero reflectir, a propósito também do que designamos de problemas psicológicos e das doenças psicossomáticas que existem cada vez mais…

Tomemos como exemplo o medo, uma das emoções declaradas básicas pelo valor que tem na nossa sobrevivência. Precisamos dela e ao contrário do que muitas vezes supomos não é possível viver ajustadamente sem medo: se ele não existir não conseguimos ponderar as decisões que tomamos e isto é visível em atitudes tão simples como atravessar uma estrada (sem cautela, os atropelamentos seriam em catadupa, temos que prevenir, e isso sucede porque temos um alarme, que os carros estejam suficientemente afastados para, em segurança, passarmos à outra margem). Do que não precisamos é de uma emoção/alarme descontrolada e aqui estamos a referir a, famosa, ansiedade patológica, que traz consigo todo o turbilhão psicofisiológico que bem conhecem: pensamentos que antecipam verdadeiras catástrofes e a activação do SNA que precipita os sintomas físicos associados.

Antigamente, enquanto lutávamos com leões na selva e enquanto seres mais rudimentares, o medo desencadeava uma reacção luta-fuga muito útil: fugir rápido ou lutar era a solução que encaixava no contexto. Nos nossos dias, este sistema da era primitiva mantém-se, mas os nossos problemas são outros… O desespero ataca, mas já não é útil. Senão reparemos: adiantará muito perante uma desilusão amorosa ou perda de emprego ficar desassossegado? Que consequências é que isso nos traz? Que reacções? Aposto que agora, sobre algumas das situações imaginadas, estão a sorrir. É tudo humano, claro. Toca a todos. Mas quando essas circunstâncias se prolongam e perdemos o discernimento, então estamos fora de nós, uma expressão tão habitual hoje em dia… A emoção já controla a razão e a nossa capacidade de pensar está diminuída, os problemas de sono, estômago, respiratórios, entre outros, aumentados.

Este é o ciclo vicioso da ansiedade: um acontecimento menos bom activa em nós os comportamentos indesejados, a atenção volta-se para o próprio e uma consciência equivocada de perigo subsiste… É tudo falso, mas é assim. Proponho outro exercício, este tipicamente clínico, muito usado no tratamento das desordens de ansiedade: imaginem-se jornalistas e coloquem o medo fora de vós, olhem para ele de frente e façam-lhe uma entrevista. O que é que ele diz sobre vocês? “Vai acontecer isto… “, “Ele pensa isto sobre ti…” “Não és capaz…” Desta forma decai a auto-estima. Deste modo ficamos prisioneiros das emoções… sem norte, sem sentido e o que apetece é fugir (ou evitar)… para onde? Correr sem orientação adiantará? Nem fuga, nem luta resultam.

A maior parte dos problemas psicológicos (psicossociais, laborais, ocupacionais), reside nesta desregulação. A psicoterapia ajuda a devolver a competência para o equilíbrio, promovendo o autodiagnóstico, autorreconhecimento e autorregulação emocional desejadas a vivências felizes. Só se vive feliz, sabendo reconhecer o que se sente, pensando sem mitos sobre a nossa circunstância. Muitos dizem e com razão, digo eu: “O que os olhos vêem traça as fronteiras da existência!”. Se o potencial emocional avaria, o horizonte é breve, colocando em causa tudo o resto.

Hoje sabemos que as emoções são o nosso maior aliado na superação de desafios e na aprendizagem, muito mais do que o QI, é a inteligência emocional o que melhor prediz o sucesso pessoal e profissional. Nas voltas que o conhecimento dá, é a filosofia socrática a inspirar o que se acredita ser o caminho a facilitar e seguir. Este aforismo antigo traduz o essencial: Conhece-te a ti mesmo. Acrescentaria, e para terminar, … e sê feliz!

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  • Animo Tito!! Vais conseguir vencer mais esta batalha... 3 years ago


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